Febre Maculosa

Fonte: Globo Rural

Transmissor

Carrapato

Uma doença terrível, típica da zona rural, está se alastrando pelo Brasil. É a febre maculosa. Causada por uma bactéria e transmitida pelo carrapato, ela pode levar o doente à morte. Já existem casos confirmados no Espírito Santo, Rio de Janeiro, Minas, São Paulo e Santa Catarina. É em São Paulo que a doença mais preocupa no momento.

É difícil imaginar que um bichinho tão pequeno cause tanto prejuízo à pecuária brasileira. Pior é saber que uma determinada espécie de carrapato pode transmitir ao homem uma doença fatal: a febre maculosa. O nome revela os principais sintomas: febre persistente, acompanhada de dor no corpo, dor de cabeça, náusea e diarréia e maculosa vem de mácula, ou manchas avermelhadas que aparecem pelo corpo a partir do terceiro ou quarto dia. Essas marcas indicam o agravamento do quadro. Não existe vacina como forma de prevenção.

Na fase inicial, o tratamento é simples. Antibióticos à base de doxiciclina e cloranfenicol são eficientes no combate à doença, mas depois do aparecimento das manchas, a cura é muito mais difícil.

No Estado de São Paulo, um dos principais centros de diagnóstico e tratamento da febre maculosa é o Hospital das Clínicas da Unicamp, a Universidade Estadual de Campinas.

Para o hospital, são encaminhados os pacientes em estado mais grave. O doutor Rodrigo Angerami, médico-infectologista e especialista em febre maculosa, diz que mesmo no hospital, com todos os recursos, o índice de mortalidade dos pacientes com febre maculosa beira os 30%. “O ponto chave para que a gente consiga diminuir a letalidade associada à doença é pensar precocemente em febre maculosa e tratar precocemente. Quão precoce? O mais precoce possível”.

O carrapato-estrela só transmite a doença quando está infectado pela bactéria rickettsia rickettsi. É uma das menores bactérias conhecidas e é ela que provoca a febre maculosa. Para contaminar uma pessoa, o carrapato precisa ficar sugando seu sangue por pelo menos oito horas. Os sintomas começam a aparecer entre o segundo e o vigésimo dia, após a picada.

cavalos e capivara - os dois hospedeiros preferidos do carrapato-estrela. Nem o cavalo e nem a capivara desenvolvem a febre maculosa. É bom lembrar que na falta desses hospedeiros, os carrapatos se alimentam de qualquer animal de sangue quente, inclusive o homem.

Um ambiente propício é sempre perto do rio, onde é o habitat das capivaras, mata ciliar e um local protegido da luz direta do sol, ou seja, um local que oferece uma proteção para o carrapato.

Nessa época do ano, de julho, agosto, o carrapato está nas chamadas fases "imaturas", de larvas ou ninfas, que vão se tornar adultas nos meses quentes do verão. Por serem muito pequeninhos, eles são difíceis de tirar, podem ficar no corpo por alguns dias e transmitir a doença. “Com certeza, é mais fácil a pessoa adquirir a febre maculosa através da picada de larvas e ninfas, que acabam entrando em contato em grande quantidade com o corpo da pessoa e além disso, o carrapato adulto tem a picada muito dolorosa, ou seja, o carrapato pica a pessoa e causa uma dor muito grande, por isso a pessoa percebe que o carrapato está picando e acaba tirando na hora, ou seja, ele não fica aquelas oitos horas fixado no corpo da pessoa, tempo suficiente pra transmitir a doença”.

“Uma área propícia tem da presença dos hospedeiros, da capivara e do cavalo, tem um pasto bem sujo, o que favorece a manutenção da temperatura e umidade importantes pra presença desse tipo de carrapato", explica a veterinária Patrícia Ferreira.

Os micuins do carrapato-estrela têm três pares de patas. Se encontrar um cavalo ou uma capivara, o micuim vai se fixar; se alimentar; cair no solo e se transformar em ninfa, aí com quatro pares de patas. A ninfa, conhecida também como "vermelhinho", vai atrás de um novo hospedeiro para se alimentar, quando já está gordinha, cai novamente no chão, quando vira adulto. Só nessa fase o carrapato define o sexo: o macho tem as costas todas pintadas. A fêmea tem só parte do desenho. Pela terceira e última vez, vão em busca de mais um hospedeiro, onde acontece o acasalamento. Na hora da postura dos ovos, a fêmea precisa de mais sangue. Pouco antes de cair novamente no solo, ela já aumentou cem vezes de tamanho.

Na comparação com as duas primeiras fases, o micuim e a ninfa: do primeiro ao último estágio, o carrapato aumenta mais de mil vezes. No chão, a fêmea coloca de três a cinco mil ovos e depois morre. Os ovos eclodem e as novas larvas recomeçam o ciclo.

“Em todas as fases a bactéria da febre maculosa pode estar presente. Uma fêmea infectada com a bactéria pode gerar cinco mil micuins infectados. Então, isso é muito importante, porque esse bolo de larvas, micuins que nós pegamos no pasto normalmente, se ela vem de uma fêmea infectada, ao mesmo tempo, a gente pode estar entrando em contato, com cinco mil larvas, ao mesmo, infectadas por essa bactéria", explica Maurício Horta.

Tem mais. Um cavalo ou uma capivara infectados ficam com a bactéria no sangue por até três semanas e podem, por sua vez, contaminar outros carrapatos.

Acabar com uma população que cresce tão rápido não é fácil. Para os cavalos, a recomendação é pulverizar carrapaticidas e não basta matar os carrapatos que infestam o animal, tem que interromper seu ciclo de vida com aplicações periódicas, segundo orientação de um médico-veterinário. É preciso cuidar, também, do pasto infestado. “O controle feito no ambiente seria roçar o pasto pros carrapatos que estão escondidos, mais na região inferior do solo, eles entrarem em contato com essa ação direta da luz solar”.

Controlar as capivaras é difícil. Ela é um animal silvestre, protegido por lei. Mas a bióloga e analista ambiental do ibama São Paulo, Rossana Borioni, explica que há exceções: “Essa lei dá abertura pra que possa ser realizado o manejo desses animais, que significa a captura e eventualmente o abate desses animais, quando há uma comprovação de dano. Então, a lei abre essa possibilidade para dano agrícola e para quando o animal representa um risco para a saúde humana. Essa comprovação é feita através de pareceres de instituições de pesquisa. Não temos ainda esse parecer para febre maculosa”.

O problema maior provocado pela capivara é que ela se desloca pelos rios. Com isso, acaba levando o carrapato - e a doença - para novas regiões. O veterinário Marcelo Labruna, coordenador do laboratório de doenças parasitárias da faculdade de veterinária da USP, comenta o avanço da febre maculosa.

Conter o avanço da febre maculosa envolve um esforço conjunto dos órgãos públicos, principalmente de saúde e meio ambiente, e dos próprios agricultores, porque quanto mais a doença se alastrar, mais difícil será seu controle.

Existem três fatores de alerta para o diagnóstico precoce da febre maculosa: morar numa região de risco, ser picado por carrapato e depois apresentar febre persistente. Na ocorrência desses três fatores, o médico deve ser imediatamente alertado.

Links para consulta e informações

• SUCEN - Superintendência de Controle de Endemias
• CVE - Centro de Vigilância Epidemiológica






 



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